“É fundamental que os consumidores adotem medidas de cautela na compra de ingressos”
A revenda ilegal de ingressos, tambem conhecida como cambismo, tem sido um problema recorrente nos grandes eventos de entretenimento ao redor do mundo.
Com o avanço da tecnologia, surgem soluções inovadoras para combater essa prática, assegurando que os ingressos cheguem às mãos dos verdadeiros torcedores — e não de cambistas que impõem valores abusivos. Contudo, surge um questionamento relevante: a tecnologia está, de fato, contribuindo para combater o cambismo ou estaria sendo apropriada por hackers e fraudadores para potencializar práticas ilícitas?
É fato que a tecnologia exerce um papel fundamental na democratização do acesso aos espetáculos e na maximização das vendas para os organizadores de eventos, especialmente pelo alcance geográfico que proporciona aos espectadores. Além disso, as plataformas digitais trouxeram ganhos significativos em conveniência, segurança, personalização, eficiência e integração, proporcionando uma jornada mais fluida, ágil e livre de atritos, tanto para os consumidores quanto para a cadeia produtiva do setor.
O ambiente digital também viabiliza a implementação de ofertas personalizadas, potencializadas por ferramentas de inteligência artificial (IA) e pelo cruzamento de dados e indicadores de consumo.. Isso permite a criação de promoções dinâmicas, com precificação variável conforme a demanda, além de descontos exclusivos para determinados grupos, o que, por consequência, impacta diretamente no aumento dos resultados econômicos dos promotores.
Neste ínterim, a tecnologia também tem sido uma ferramenta estratégica no combate ao cambismo, especialmente diante dos prejuízos que essa prática impõe à experiência do consumidor e à credibilidade dos eventos. Cada vez mais, grandes eventos têm enfrentado situações críticas e desgastantes, como duplicidade de ingressos, códigos inexistentes, esgotamento instantâneo, preços abusivos e o consequente afastamento do público-alvo.
Além dos prejuízos causados aos consumidores, a revenda ilegal impacta diretamente o resultado financeiro dos produtores de eventos. A redução da receita não se limita ao curto prazo, comprometendo também a sustentabilidade financeira do setor de entretenimento no longo prazo. A reputação dos organizadores fica em xeque, podendo gerar desconfiança e desestímulo aos futuros compradores.
Entre os eventos mais afetados pelo cambismo estão justamente as competições e turnês mais populares do mundo, como a Copa do Mundo da FIFA, os Jogos Olímpicos, a UEFA Champions League, os torneios de Grand Slam no tênis, a turnê “Eras” de Taylor Swift, o Rock in Rio e o Coachella.
Os reflexos negativos dessa prática extrapolam os limites dos eventos e atingem diretamente o turismo e a economia local. Quando os turistas não conseguem adquirir ingressos a preços razoáveis, o potencial de consumo em outros setores, como hospedagem, alimentação e transporte, diminui, afetando toda a cadeia produtiva associada ao entretenimento.
Neste cenário, a adoção de ingressos digitais com tecnologia blockchain, identificação biométrica, plataformas de revenda autorizadas e análise de dados com IA tem revolucionado o setor, tornando os ingressos mais seguros, rastreáveis e protegidos contra transferências e revendas ilegais. O blockchain impede fraudes e falsificações; a biometria garante que apenas o comprador legítimo utilize o ingresso; as plataformas autorizadas asseguram revendas seguras e controladas; os aplicativos móveis proporcionam gestão completa do ingresso; e a IA permite monitoramento contínuo, identificando e coibindo práticas suspeitas em tempo real. Juntas, essas tecnologias formam uma barreira robusta contra o cambismo, protegendo tanto os consumidores quanto os promotores.
A combinação dessas soluções permite a criação de um ambiente mais seguro, transparente e justo para os fãs, reduzindo significativamente o impacto da revenda ilegal em eventos esportivos e culturais. Contudo, a eficácia dessas medidas depende da colaboração entre organizadores, plataformas de venda e autoridades reguladoras, formando uma aliança indispensável para a proteção dos interesses dos consumidores e a garantia de acesso justo aos eventos.
Em síntese, o cambismo gera impactos negativos profundos, prejudicando tanto o público quanto os organizadores. Embora, sob certo aspecto, sinalize alta demanda, suas consequências são majoritariamente deletérias, gerando insatisfação generalizada e comprometendo a saúde financeira do setor. Assim, é urgente a adoção de regulações mais rigorosas e de estratégias tecnológicas eficazes para mitigar esse problema, construindo um mercado de entretenimento mais justo, sustentável e acessível para todos os envolvidos.
Diante desse cenário, é fundamental que os consumidores adotem medidas de cautela na compra de ingressos, especialmente em sites de revenda não oficiais ou com domínios estrangeiros, sob pena da expectativa pela realização de um sonho/desejo dar lugar à frustração, prejuízos financeiros, transtornos emocionais e logísticos, e, não raro, à exclusão da própria participação no evento.
*Eduardo Luz, Diretor Executivo da ADVB/SC.