Velhas desculpas

Velhas desculpas

1. “Todos sabemos muito bem que, com honrosas exceções, a mão-de-obra que vem sendo disponibilizada ao mercado pela maioria das faculdades de comunicação é muito fraca, não apenas a do ponto de vista da capacitação técnica, mas essencialmente da condição cultural, sendo que em alguns casos beira o semi-analfabetismo”.

”Não podemos esquecer que a propaganda brasileira deve seus melhores momentos a psicólogos, sociólogos, jornalistas, filósofos, antropólogos, bacharéis em letras, artistas plásticos e outros especialistas em ciências humanas e, por que não, a muitos engenheiros, advogados, médicos… Gente, portanto, com bagagem cultural suficiente para dar substância retórica a uma atividade que vive, essencialmente, de convencer pessoas”.(jornal Propaganda & Marketing de 25.02.2008).

2. “Um absurdo querer regulamentar a profissão de jornalista. Se houvesse isso, não teríamos as cabeças brilhantes que têm feito o jornalismo. São psicólogos, sociólogos, filósofos, antropólogos, bacharéis em letras, artistas plásticos e outros especialistas em ciências humanas e, por que não, muitos engenheiros, advogados, médicos. Gente, portanto, com bagagem cultural suficiente para dar substância retórica a uma atividade que vive, essencialmente, de informar e convencer”.

“Impossível regulamentar a profissão de jornalistas, como querem esses doutorzinhos. Só existem dois cursos no Brasil, o da Cásper Líbero e um no Recife. São cursos fracos, com professores que não entendem nada. A mão-de-obra que está saindo de lá não serve pra nada”. (ouvido nas redações pelos estudantes de jornalismo que lutavam pela regulamentação da profissão, em 1961. Sou um dos que ouviram isso).

3. O que mudou nesses 47 anos, nos argumentos das pessoas que são contra qualquer regulamentação profissional? Nada. É o mesmo tro-lo-ló de sempre. “A profissão exige vários saberes, não pode ser privilégio de alguns”.(Só falta chamar ironicamente os formandos em publicidade de doutorzinhos, como faziam antigamente com os formandos em jornalismo).

4. Tem também o argumento do “ensino fraco’ e dos professores incompetentes”.
Não sei se você tem prestado atenção na reclamação dos Conselhos de Medicina e nas Ordens dos advogados e de outras profissões: quase todas criticam a qualidade do ensino ministrado pelas Faculdades.

É o caso de perguntar: se todas reclamam, é porque o problema não é do ensino da comunicação. É do ensino no Brasil. Então, ao invés de penalizar uma atividade, que tal juntar energias e promover uma campanha para sensibilizar o governo e as instituições de ensino?
A gente prestaria um grande serviço ao país.

5. Finalmente, o argumento de que os melhores publicitários não freqüentaram cursos de comunicação. Também diziam isso com relação aos jornalistas daquela época. No entanto, o nível de analfabetismo nas redações era enorme. Salvavam-se porque havia a figura do revisor. Deus me livre de dizer que existem analfabetos na publicidade. Mas que a grande maioria não é lá essas coisas, está demonstrado nas peças que andam sendo veiculadas por aí. As mentes brilhantes que volta e meia são citadas, não passam de exceções. E exceção não é um bom argumento.

Eloy Simões
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Elóy Simões é Publicitário, professor, jornalista e consultor

*Artigo originalmente publicado no site “Acontecendo Aqui”

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