Um novo nome para o desenvolvimento

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Miguel Sainún Nozar, economista, escritor e mentor, com uma visão especial sobre o papel do empresário na construção do futuro.

O saber econômico convencional, do alto de seu comodismo tradicional e dos interesses camuflados que acoberta, teima em comparar a grandeza das nações apenas pelo tamanho de seu Produto Interno Bruto (PIB), medida (aproximada) de toda a riqueza produzida num país ou região num determinado período.

Esclarecendo: Riqueza concreta, que pode ser estabelecida em unidades monetárias e refletida num valor que depois é transformado pela cotação referencial de uma moeda de aceitação geral. Em geral, o dólar americano.

Depois, esse valor é referenciado à população total e, claro, quando esse número é expressivo, o governo bate palmas e corre apresado para colher os dividendos políticos de praxe.

Porém, olhando friamente no mundo real, esse valor também serve muito bem para jogar embaixo do tapete as distorções que existem entre os diferentes segmentos do tecido social e as aberrações da desigualdade de renda e seu cortejo de malefícios.

Wang Xiaoguang, renomado especialista do Instituto de Investigação Econômica de Beijing, aponta um fato geralmente despercebido e que merece a mais cuidadosa atenção:

“Não pode olhar-se apenas para a taxa de crescimento de um país como um valor absoluto. Temos que considerar algo muito mais importante, que é como essa riqueza adicional é distribuída entre a população. Porque apenas assim temos uma sólida base para avaliar até que ponto a evolução presente contribui com o equilibro social e aumenta o poder de consumo da maioria, que são metas críticas para se manter um desenvolvimento sustentável”.

Ainda assim, muitos perguntam: É suficiente?  Isso resume e acolhe as aspirações humanas? O crescimento ilimitado da riqueza mundial pode sinalizar a extinção de todos os recursos do planeta? Existem outros meios para medir e comparar a riqueza de uma nação? É possível garantir um futuro sem sobressaltos? Existem limites?

Quem sabe a luz emane das acertadas reflexões de John K. Galbraith, um dos maiores pensadores do Século XX: “O desenvolvimento é mais que o crescimento ou a queda da renda nacional. É muito mais a criação de um ambiente no qual as pessoas possam desenvolver todo seu potencial e conduzir suas vidas segundo suas necessidades e interesses. Desenvolvimento significa expansão das possibilidades de escolha daquilo que as pessoas valorizam e isso é muito mais que o crescimento da economia, por mais importante que isso seja”.

A sabedoria desses conceitos parece ter encontrado eco no Butão, um pequeno reino budista situado no alto do Himalaia entre a Índia e a China, com 700 mil habitantes, que afirma ter encontrado uma resposta que atende os anseios de uma vida melhor para todos, tal como enfatiza seu primeiro-ministro, Jigme Thinley: “O que precisamos é de mudança, precisamos de um desenvolvimento que tenha como base a felicidade das pessoas”

Em consequência, surge um novo conceito, denominado Felicidade Interna Bruta (FIB, uma ideia absolutamente revolucionária e inovadora que joga para o escanteio séculos de tradição inserida nas diferentes doutrinas que tentam mensurar a riqueza de um país.

No Butão, a FIB é um projeto de governo na forma de um sistema de conceitos e padrões que possam ser quantificados e medidos. Por isso os butaneses produziram um elaborado modelo de bem-estar que conta com quatro pilares, nove domínios e 72 indicadores de felicidade.

Especificamente, o governo determinou que os quatro pilares de uma sociedade feliz envolvem economia, cultura, meio ambiente e boa governança. Eles se dividem em nove domínios: bem-estar psicológico, ecologia, saúde, educação, cultura, padrões de vida, uso do tempo, vitalidade comunitária e boa governança, cada um com seu próprio peso no índice do

FIB.

Em tempo: No ranking de 2021, Finlândia, Dinamarca, Islândia, Suíça e Noruega são os cinco países mais felizes do mundo, de acordo com o resultado da pesquisa anual realizada pelas Nações Unidas* para medir esse parâmetro.

É bom observar que, sob qualquer ponto de vista, esses países estão muito bem inseridos nos quatro pilares definidos por Butão como princípios indispensáveis para atingir a felicidade. E que parece ser muito natural que o crescimento econômico seja parte do resultado desse conjunto de fatores positivos. 

Tudo parece indicar que a felicidade – que não podemos esquecer, é um conceito pessoal e subjetivo – pode e deve ser considerada um componente essencial para acelerar a produção de riqueza e, nessa procura empolgante e com as devidas adaptações, podemos trilhar o caminho recomendado por esse lendário país na expectativa de um desenvolvimento contínuo, amigável com o meio ambiente e economicamente sustentável. *Em 2013 as Nações Unidas, por resolução da Assembleia Geral, consagraram o 20 de março como Dia Internacional da Felicidade.