Sem falta de apetite

Sem falta de apetite

A economia e a política do país tiram o apetite dos empreendedores brasileiros? De certa maneira, sim – mas, na vida empresarial, como na mesa, sempre há espaço quando o prato é saboroso e atrativo. É verdade que somos esmagados diariamente por um conjunto de mais de 50 tributos, taxas, contribuições e afins. Somados, exigem 129 dias de trabalho do contribuinte. Confisco puro, resumindo. Também é irrefutável que há um massacre de leis e imposições quando o assunto é gerar empregos. Nesse caso, o termo mais adequado é punição. A esta altura, o estômago de quem deseja abrir seu negócio já está embrulhado. Contudo, ainda é preciso enfrentar a burocracia, os intermináveis feriados, a corrupção, o nepotismo e muito mais.

Diante de tantos desmandos estruturais e efêmeros é natural que a disposição do empresário esteja abalada. Todavia, qual o fastio que resiste ao aroma de uma boa refeição? O brasileiro é chef cinco estrelas quando o assunto é superar dificuldades. Na alimentação, por exemplo, ainda há um vasto espaço aos que esperam se diferenciar, seja pelo preço ou pela qualidade. A classe média come mal e paga caro. Ainda é levada a confundir preço alto com satisfação. E se faço referência à classe média é porque ela representa a maior fatia de potenciais consumidores para o setor de alimentação. Dados do IBGE revelam que mais de 80% desta faixa social faz, pelo menos, uma refeição diária fora de casa. E que, nos itens de lazer, a opção ‘jantar fora’ está à frente de ‘ir ao cinema’ ou às ‘casas noturnas’, notadamente quando são casais e acima de 30 anos, o que significa poder aquisitivo.

O brasileiro, portanto, quer comer mais e melhor – e, por justiça, não precisa pagar muito por isso. A gastronomia ainda engatinha no Brasil porque se prende a conceitos estrangeiros, deixando de valorizar nossos ingredientes, temperos, bebidas, formas de preparo e outros detalhes. Já disse o eminente jurista Sobral Pinto que “quando o Brasil criar juízo será a cachaça e não o whisky a bebida universal”. Pois por muitos anos demos as costas à pinga, relegando-a a condição de bebida da população de baixa renda. Quem teve visão, há duas décadas, hoje exporta e fatura com um produto diferenciado, tão exclusivo quanto o rum caribenho ou o gim inglês.

Em síntese, se o ‘cardápio’ gerado pelo poder público é pior que pão velho e carne dura, também falta apetite qualificado aos empreendedores. O consumidor, esse sim, vai aprendendo a escolher e assim promovendo uma saudável seleção natural no mercado. Ao empreender na área de alimentação (porém a lição é válida para quaisquer setores) o empresário deve recorrer a uma interessante analogia: quando comemos, devemos pensar em toda a nossa vida, e não somente numa refeição, e assim nos preservaremos saudáveis e longevos. No dia-a-dia dos negócios o menu impõe planejamento estratégico, paciência e dedicação.

Beto Barreiros foi Personalidade de Vendas em 2002 e o Box 32 recebeu três Top de Marketing (1989/2000 e 2003)

×

Olá!

Envie sua mensagem pelo WhatsApp

× Informações