”Não pedimos nenhum favor”

''Não pedimos nenhum favor''

Natural de Joinville, no Norte de Santa Catarina, Vicente Donini, hoje aos 64 anos, é um dos empresários mais respeitados do Estado, com o perfil empreendedor de quem transformou a empresa familiar numa das maiores indústrias têxteis do Estado e do país, a Marisol, de Jaraguá do Sul, da qual é o presidente.
Técnico em Contabilidade de formação, Donini tem especialização em Marketing e Finanças Internacional pela University Southern Califórnia (USC), de Los Angeles (EUA), concluído em 1976 e também em Programa de Gestão Avançada, pela Fundação Dom Cabral/INSEAD – The European Institute of Business Administration, Fontainebleau – França, em 1998.
Além da Marisol, empresa que surgiu ainda na década de 1960, como fábrica de chapéus de praia (por isso o nome Marisol), exerce também a presidência da Santinvest Participações, empresa holding do setor financeiro, e participa dos conselhos de administração da Santinvest Participações, de Florianópolis, da Condor e Tuper, ambas de São Bento do Sul, e da Karsten, de Blumenau.
Atuante nas entidades empresariais representativas, Donini é diretor da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) e do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Jaraguá do Sul, diretor adjunto do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem de Blumenau (Sintex) e integrante do Conselho Deliberativo da Associação Comercial e Industrial de Jaraguá do Sul.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Vicente Donini ao Diário Catarinense.

INDÚSTRIA
– Inexiste Plano de Desenvolvimento Industrial que dê sustentabilidade à indústria brasileira. Sem essa iniciativa em âmbito federal, mesmo as ações pontuais do governo estadual acabam produzindo resultados muito tímidos. Não por outra razão, o crescimento da indústria brasileira, e por extensão a catarinense, nos últimos 10 anos, com honrosas exceções, foi muito pequena, mesmo assim puxado pelo “boom” da economia mundial.

INFRA-ESTRUTURA
– Estamos todos ávidos pela retomada do crescimento da economia e há importantes segmentos do setor industrial preparados para isso. Todavia, não nos iludamos: sem maciços e continuados investimentos em infra-estrutura, não há como crescer de forma sustentável, a razão de 4% a 6%, por pelo menos 10 anos consecutivos. Em razão das nossas deficiências crônicas nesta área, o Brasil despende com logística cerca de 20% do PIB. Já os Estados Unidos despendem 12% e a média européia é de 8%. Isto é parte da irracionalidade do chamado custo Brasil.

SETOR TÊXTIL
– É uma atividade relevante, que em toda sua cadeia produtiva emprega 1,6 milhão de pessoas, haja vista a natureza da atividade, em especial no segmento de confecção, que demanda grande contingente de mão-de-obra, predominantemente com baixo nível de escolaridade compatível com a média nacional. Por isso, constitui-se num relevante amortecedor social e, mesmo assim, não temos sido capazes de sensibilizar os nossos governantes sobre a necessidade de conferir-lhe, pelo menos, eqüidade e tratamento. Não pedimos nenhum favor, apenas igualdade de tratamento.

DESAFIOS
– Da porta da fábrica para dentro somos competitivos. O que não suportamos são as desigualdades, dentre elas destaco, a prática desleal de comércio – contrabando, subfaturamento, pirataria e a famigerada e crescente informalidade – práticas que aniquilam a capacidade competitiva das empresas formais. Quanto a paridade cambial, há pouco por fazer, haja vista que ela resulta da maior ou menor oferta de moedas fortes, em consonância com as leis de mercado. As intervenções do Banco Central têm apenas o poder de amenizar a situação em determinados momentos. Já em relação a terceiros países, perdemos completamente a capacidade de competição para a China pois, tomando-se como verdadeiros os indicativos de que o Real está apreciado em cerca de 15% e o Yuan (moeda chinesa) depreciado em cerca de 30%, ambas em relação ao dólar norte-americano. A nossa desvantagem competitiva é de 45% apenas e tão somente por conta da paridade cambial.

SUCESSÃO
– O processo sucessório ainda está em curso, com os potenciais sucessores cumprindo extenso programa de “coaching”, que prevemos concluir neste final de ano, para só então submeter o resultado a apreciação e aprovação das instâncias pertinentes para a tomada de decisão e então torná-lo público.

SANTA CATARINA
– O Estado de Santa Catarina está inserido num contexto maior, o do Brasil, e como tal não pode ser considerado uma ilha de prosperidade. É preciso que o Brasil promova, de uma vez por todas, as tão reclamadas reformas estruturais. Embora também necessárias, não bastam apenas as ações pontuais que eventualmente minimizem dificuldades de natureza conjuntural. Isso até ajuda, mas não resolve. É preciso ousar, termo freqüentemente empregado pelo Presidente Lula quando se refere à classe empresarial. Fica a indagação aos nossos governantes: quando é que ousarão na promoção das esperadas reformas estruturais, para que a sociedade brasileira, empreendedora que é, possa realmente investir com confiança na expansão de seus negócios?

CARGA TRIBUTÁRIA
– Se voltarmos no tempo, quando do lançamento do Plano Real, a massa de tributos cobrada no país correspondia a cerca de 22% do PIB (Produto Interno Bruto). No ano de 2006, suplantou os 36%. Na mesma linha de raciocínio, os encargos financeiros e tributários incidentes sobre os bens de consumo não duráveis correspondiam a 34% do preço pago pelos consumidores brasileiros. Logo, ao despender 100, o consumidor levava para casa 66% em produtos. Em 2006, tais encargos alcançaram 46%, assim, dos mesmos 100 despendidos, ao produto corresponderam 54%. Neste lapso de tempo, para o mesmo dispêndio, resultou 18,2% a menos de produto.

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