Internet, pra que te quero

Internet, pra que te quero

Todos sabemos e comentamos, nos momentos de obviedade, a facilidade que as crianças têm com os computadores e com a internet. Os mais enfáticos afirmam que elas “já nascem com a web no sangue”. Exageros à parte, vejo claramente que os mais jovens (não necessariamente crianças) dominam essa ferramenta, enquanto representantes das gerações anteriores se confessam sem condições para isso. Eu, que represento a geração Melhor Idade, o que quer que isso queira dizer, até que me viro razoavelmente bem com o computador e, no que diz respeito à internet, venho evoluindo muito bem no sentido de com ela estabelecer uma relação amistosa, harmônica.

Não tenho um blog (ainda), nunca entrei no orkut nem pretendo, não faço parte de nenhum site de relacionamento. Mas já me sinto perdido se depois de dois dias não tenho apoio da internet por perto, a ponto de entrar num cyber café para checar as mensagens recebidas. Dizendo isso, pode parecer que me correspondo com poderes formais e secretos que, combinados, definem o norte do meu dia a dia. Não, não é nada disso. Falo com meus filhos,com alguns amigos e trato de negócios como fazia até bem pouco tempo pelo telefone. Penso que a maioria dos mortais que não sejam jovens ou crianças estejam na mesma situação.

Só que para estabelecer essa convivência pacífica, tive que superar algumas tendências de raiva, indignação. Vejam se não tinha razoes para isso: todos os dias recebo três ou quatro mensagens do Kuwait, Nigéria, Canadá, Vaticano, China e outros cantos do mundo que adoraria conhecer, para dizer que estou recebendo não sei quantos milhões de euros por conta de heranças sem destino, de verbas de caridade para serem aplicadas entre os portadores de HIV e tantas outras histórias dignas de ficcionistas; todos os dias recebo da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Austrália, mensagens dizendo que estou apto a receber – de novo – não sei quantos milhões, participando das maiores loterias e Jack-pots do mundo; todos os dias recebo de amigos caridosos pelo menos duas orações, que deveria mandar para mais 15 beneficiários, se não quiser me sentir envergonhado ou sofrer os malefícios de quebrar a corrente; todos os dias me chegam informações mais ou menos confidenciais sobre a ministra que foi guerrilheira, os gastos da presidência da república com a sua despensa e os movimentos de militares revoltados com a impunidade que vigora; todos os dias recebo alguma piada (vocês já perceberam que não se conta mais piada nas rodas de papo e cerveja? – todas já circularam pela internet e ninguém mais tem vontade de rir com elas). Isso tudo sem contar os textos atribuídos aos principais colunistas brasileiros, carrões maravilhosos, as entrevistas do Jô Soares, as mulheres que não existem e tantos outros temas mais ou menos educativos.

Claro que todo esse material descartável toma um enorme tempo para deletar, mesmo sem ler, atrapalhando o fluxo do que realmente interessa. No começo isso me irritava, eu lamentava e esperneava, mas gradualmente fui entendendo que é como na relação com pessoas – existem as importantes, as supérfluas, as chatas, as muito chatas, mas você não sai por aí agredindo alguém só porque é muito chato (mesmo que às vezes tenha vontade). Então nós combinamos, a internet e eu, que teríamos uma convivência tolerante e – na medida do possível, harmônica. E tem dado resultado.

Agora fui alertado para o perigo representado pelo projeto de lei que acaba de ser aprovado em comissão no Senado, que restringe as liberdades de expressão e opinião na internet. O projeto tem por pretexto evitar que usuários de computador acessem informações sobre políticos e as retransmitam “numa cadeia sem fim” (…) “com objetivo de caluniar, difamar ou injuriar autoridades e outras personalidades e destruir sua reputação”. É o que diz o parlamentar governista Expedito Junior (PP-RO) na sua exposição de motivos.

Eis o que eu digo: Censura na internet não! Quero as minhas correntes, os milhões de euros que um dia vou reclamar, as orações que tanto preciso, e tudo o mais que recebo e muitas vezes nem leio. Quero, sim, saber que a ministra foi guerrilheira, que a despensa real é absurdamente bem sortida. Quero ter a liberdade de receber, via internet, o que quiserem me mandar e quero ter a liberdade de ler ou deletar, responder ou arquivar. Quero não, exijo.

Julio Pimentel
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Administrador e publicitário, vivenciou marketing e comunicação em empresas como Unilever, Pepsi, Almap, JWThompson e outras. Lecionou na ESPM e na ADVB em São Paulo, onde também participou ativamente de associações de classe e comunitárias. Vive em Florianópolis, onde é consultor e sócio da Página Um Propaganda.

Artigo publicado originalmente no site Acontecendo Aqui

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